este espaço pode ser meu

Chamo-me Palmira, sou uma sardinha, e estou aqui para vos contar a minha história (parte 2)

sardinha

(parte 1)

Distribuídas por cabazes, seguiu-se uma espera de um par de horas, enquanto aguardávamos a nossa vez para chegar à linha de leilão. Para quem já faleceu, aguenta-se bem a espera, diga-se. Faço parte do cabaz da frente, o que significa que estou no lote das representantes do cardume e servirei de amostragem para os compradores, que estarão na bancada a apreciar e a leiloar a pescaria. Uma honra. Assim vale a pena cair num cerco!

O meu cabaz percorre agora a linha de leilão. Chegou a nossa hora. Outra vez. Começamos nos 40,00€. O leilão, nas lotas, é invertido. O preço desce, desce, até se encontrar com o mais rápido comprador. Há um homem que se aproxima do cabaz e pega num exemplar. E algo de incrível acontece. Sou eu a escolhida! Há um homem que me pega, me eleva bem lá no alto, enquanto berra para os compradores: “Sardinha, frescura extra!”. Que loucura! Se pensasse, pensaria para comigo “Palmira de Bartolomeu Pires, é este o ponto mais alto da tua carreira de sardinha! Foi para isto que nasceste e morreste”. Se sentisse, sentiria um arrepio na espinha, como daquela vez em que me aventurei sozinha – uma vez sem exemplo – por mares mais gelados. Frescura extra! Somos frescura extra, o máximo! Valeu a pena levar uma vida saudável. Ainda consigo ouvir a minha mãe “Maria Palmira, come a sopa de plâncton, Maria Palmira!”. Valeu o esforço. Estou no descanso eterno, mas sou uma sardinha de frescura extra. Obrigado, meu Deus das Sardinhas.

Somos arrebatadas por 24,00€ o cabaz, 1 euro e pouco o quilo. Não sei se é muito ou pouco, já não estou dentro do preço de mercado. Foram 8 meses sem embarcações por perto a chatear as barbatanas à malta. Certo é que cada vez faz mais sentido aquela máxima que diz que cada um de nós tem um preço. O meu andará ali pelos 7 cêntimos. Não será muito. Mas na verdade, é-me perfeitamente indiferente.

sardinha


Parece que fomos compradas por um armazenista, pelo que seguimos para o respectivo armazém, onde pernoitámos. De manhã cedo, uma tal Dona Celeste levou-me, juntamente com algumas amigas, a 1,82€ o quilo. Vá-se lá entender isto. Quanto mais falecida estou, mais o meu preço sobe. Chegada ao mercado, nem tempo tive para apreciar as vistas. Uma tal de Gorete levou-me para aquela que seria a minha última morada. 2,90€ o quilo. Onde é que isto vai parar?
A resposta chegou à noitinha. Terei ido parar a um prato. Pouco antes, recordo-me das palavras de alguém: “Uma sardinha boa é gorda e quando vai a assar na brasa, ela pinga”. Gorda?? Nem tempo tive de encaixar tamanho insulto. Só me lembro de sentir muitos calores e começar a suar em bica. Espero ter sido deliciosa.

Palmira de Bartolomeu Pires

Quer ser o primeiro a receber o próximo artigo?

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *