este espaço pode ser meu

O que não há dentro das lotas é o que há nos mercados à venda

porto pesca figueira da foz

JOSÉ SANTOS (ZÉ ZÉ) Armazenista, ocupante de três armazéns no porto da Figueira, brinca connosco: “Venho comprar aqui algum peixe. Se estiver à espera do peixe daqui morro de fome”. Porquê?, perguntamos. E logo a rápida resposta: “Porque 80% do peixe daqui, o que é bom, sai todo fora”. Como é que 80% do peixe não vem para aqui? “80% por cento não será… mas vou-lhe dizer: as espécies mais procuradas não aparecem dentro da Docapesca. Na Figueira, Aveiro, Nazaré, Matosinhos, por todo o lado”.

Há peixe que se vende “na candonga” a preços muito mais baixos, sem factura, sem nada. “O tempo que vem aqui pra dentro, vai fora da rede e mete à carrinha. Desde o mercado do Bolhão até ao mercado da Ponta de Sagres é sempre a mesma história. O que não há dentro das lotas é o que há nos mercados à venda. Faça o teste. Você aqui não vê nenhum pargo… não vê nenhuma pescada grande… viu aqui quatro gorazes numa caixa… mas se chegar aí a um mercado qualquer vê lá aquilo tudo. Onde é que foi vendido? Ninguém sabe… onde é que foi comprado? Também ninguém sabe… é o que se passa aqui na Figueira. Eu compro uma caixa de carapau por 20,00 euros e às vezes há um colega meu que está a vender ao meu lado por 15. Eu comprei na lota e tenho de pagar impostos… isto passa-se com qualquer espécie”. Existem n embarcações que têm contrato. Uns com entidades patronais muito grandes, outros contratos com uma gente mais pequena. Ora quem tem contratos, entrega o melhor produto a quem lhe compra o produto. É normal, pois é esse o seu sustento o ano inteiro. Depois o peixe que não interessa para o contrato pode já vir para a lota. “


Mas em todo o lado se passa isto. Quando a sardinha vier compra-se na lota a quatro euros, ou até a cinco. Mas depois, se calhar, ela é entregue no mercado a dois euros o quilo. Uma pergunta fica no ar: “Como combater e acabar com tudo isso”? Mas quem compra sempre na Docapesca “está legal a 100% e não tem problemas com ninguém”. Essa é a vantagem. E quem anda nesta faina diária sabe que, em qualquer dia, a qualquer hora, a partir das duas da manhã, pode acontecer uma fiscalização e, caso haja alguma irregularidade, a vida pode ficar arruinada.

Os seus armazéns na lota são o 7, o 8 e o 9. Oitenta por cento da venda de peixe que realiza é para exportação. Trabalha muito com Sevilha, Madrid, Córdoba, Huelva, Vigo, Corunha. Matosinhos, diariamente, Lisboa, raramente, e Setúbal, quase todos os dias. Quem anda nisto há 21 anos, sempre na Figueira, sabe bem do que fala. O seu avô e o seu pai já andavam nesta faina, ainda no outro lado da margem do rio, com o porto de pesca dentro da cidade. Um porto de pesca gera muito movimento e vida numa cidade. “Isto gera muito dinheiro, gera muito emprego, são muitos sectores de trabalho. Isto é muito importante mesmo. Gera muitos milhares de euros e mexe muito com a cidade.” – e continua: “Embora o porto de pesca da Figueira esteja muito abandonado. Há obras na barra e nisto e naquilo e ninguém se preocupa com o porto de pesca. Há sim uma grande preocupação com o que sustenta o cais comercial, que são os cargueiros que trabalham com a Celbi e da Soporcel. E o porto de pesca precisa de obras…

A juntar a este rol de preocupações uma outra, que não é de somenos importância: há muita gente na cidade, que não sabe que há na cidade um porto de pesca, e muitas pessoas não sabem sequer onde fica. Saberão que é possível ir ao porto de pesca comprar peixe aos armazéns, se se comprar uma quantidade mínima de cinco quilos? Falta a divulgação deste espaço e caso ela acontecesse talvez “isto pudesse levar uma evolução”.

No porto de pesca existem 28 armazéns da Docapesca. “Há quinze anos atrás não havia um armazém para alugar. Estava tudo completo, e éramos trinta ou trinta e cinco comerciantes a trabalhar. [Hoje] existem dezoito armazéns abandonados por alugar. Comparando com os números de há uma quinzena de anos conseguimos ver a decadência evidente, fruto de preços de aluguer muito altos, quando comparados com os de outras localidades do país”.

Ao falar da lota que acontece na Docapesca durante o período da manhã, e que se realiza na bancada mais pequena mesmo ao lado da bancada onde decorre esta conversa, não deixa de enfatizar que é uma lota mais directa, mais séria e também mais calma. As espécies são diferentes: vende-se carapau, faneca e sardinha. O que se vê vender é o que sai do barco. “Enquanto a gente aqui vê vender dezenas e centenas de caixas e o que estamos à espera nunca aparece. E já não aparece porque já está lá fora!” A pergunta sensível, a ser feita, é directa e objectiva: como é que a Docapesca não controla isto? A resposta é elucidativa: “Isso eu não sei, porque eu não trabalho na Docapesca”. E a pergunta que nos lança, em formato de resposta, é por demais certeira: “E como é que a guarda fiscal também não controla?”. E remata, por fim: “Você já me arranjou aqui uma bronca, que eu já perdi uns dois ou três quilos”.

Entrevista conduzida por Ana Biscaia
O Palhinhas, Junho de 2019

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