este espaço pode ser meu

Parabéns! E juizinho.

figueira da foz antiga

(escrito para o Palhinhas, 20 de Setembro de 2018)

Centésimo trigésimo sexto. Assim se escreve – por extenso, para parecer mais impressionante – o aniversário que a Figueira da Foz comemora como cidade. Trata-se assim, como é evidente, de uma cidade como mais que idade para ter juízo. No entanto, sabemos nós (que convivemos com cidades com aturada frequência), que o juízo das cidades se mede por variáveis que escapam ao seu próprio controle. A cidade, como qualquer localidade, limita-se a estar ali, à espera do que façam com ela. E se porventura a cidade aparenta contar com um défice considerável de juízo, apesar da idade avançada, essa particularidade não pode ser imputada à cidade em si, mas sim às pessoas que fazem da cidade o que ela é. Esta afirmação parece ser tão inquestionável, que convido o leitor a saltar imediatamente para o parágrafo seguinte, onde se irão expor considerações sobre o impacto que as pessoas emprestam aos juízos das cidades, como essa tal de Figueira da Foz.

A Figueira da Foz foi, em tempos, a miúda mais popular lá da escola. Sim, diz-se muito por aí que há uns anos para lá de longínquos, a Figueira era aquela cidade que muitos queriam conhecer, com quem estar e com quem privar. E quando se diz muito por aí, ainda para mais com provas fotográficas a condizer com uma Figueira como destino de eleição, as pessoas de hoje só podem agradecer às pessoas de então – sem esquecer a beleza natural da miúda – a elevação da cidade a tão considerada reputação.

Cresceu a miúda. E aquela sua beleza natural, apesar de ainda perfeitamente visível e presente, ganhou espinhos, próprio da adolescência das cidades. Espinhos que foram crescendo com a idade, um pouco por toda a cidade, descaracterizando espaços e criando barreiras, em nome da ganância do patobravismo e com a conivência do “regulador”. Está nos manuais das cidades: perdem juízo com más políticas de ordenamento. Foi o início de um acumular de decisões e estratégias dúbias. Anos a fio de uma cidade errante, de más companhias, espevitada aqui e acolá por pontuais injecções de crescimento, sob o olhar de uma população adormecida, conformada e confortável com o destino aleatório da sua cidade outrora popular, mas ainda hoje de uma beleza estonteante.
Merecias mais, minha querida. Haja esperança. Parabéns! E juizinho.

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