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Vicissitudes e enquadramento da Faina Marítima

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São entre dez e vinte as embarcações que aportam diariamente, com o peixe e os homens das companhas (oito a dez por barco), ao porto de pesca da Figueira da Foz. Do lado dos compradores, sessenta a setenta licitam aí, todos os dias, as várias espécies capturadas (artesanalmente, por arte envolvente de cerco ou por arrasto) que percorrem, por ordem de chegada, o tapete rolante da Docapesca, isto depois de pesadas e associadas ao preço médio pelo qual foram vendidas no último dia de lota na cidade.

Tiago Jorge, encarregado da Docapesca, diz-nos que, em tempos idos, o bulício local era outro: «Se querem ver uma coisa a sério, em Peniche têm na bancada trezentas e cinquenta pessoas a comprar peixe. Aqui tem menos. Já houve anos em que teve mais, se calhar já cá tivemos duzentas. E Peniche é assim porque sofre, pela parte positiva, da área metropolitana de Lisboa. Quando acabaram com o porto de Pedrouços, eles tiveram que ir para onde? Para Peniche. Peniche e Matosinhos são as duas grandes lotas».

Ora, sendo verdade que vai faltando gente para trabalhar no mar (muitos são os filhos de mestres detentores de barcos que, devido à prossecução nos estudos e à dureza e baixa retribuição do labor pesqueiro (muitas vezes de acordo com o rendimento da pesca), escolheram uma profissão que não a de tradição familiar), assim como “nem sempre é o mar que castiga os pescadores” – afirmou-o Romeu Correia em 1948, no seu livro Trapo Azul –, importa dar conta de um contexto configurado pelo abate de frotas ocorrido há umas décadas ou por alguns regulamentos comunitários em vigor – note-se, por exemplo, que foram definidos tamanhos mínimos para o peixe poder ser comercializado, sob pena de ser devolvido ao armador, e de não chegar a entrar em lota (“despojo inútil de canseiras perdidas”?, de novo Romeu Correia).


Além da progressiva carência de pescadores, Tiago Jorge junta outra variável à equação, a sobrepesca: «Que há cada vez menos peixe é um facto que está à vista de todos. O meu pai trabalhou aqui quarenta anos e dizia-me que antigamente não era assim. Os pescadores apanhavam o dobro disto. Havia peixe por todo o lado. A sobrepesca tem começado a levar à escassez do peixe. Se continuássemos com mais cinquenta ou sessenta embarcações em cada porto ainda menos peixe tínhamos».

Trata-se de um raciocínio que necessita de complemento. Senão vejamos: uma hora depois, após outro empregado da Docapesca corroborar a menor abundância, na actualidade, de certas espécies – «noutros tempos, quando vinham os barcos marroquinos, havia dias em que recebíamos cinquenta ou sessenta toneladas de peixe. Às vezes era a semana toda a fazermos a descarga e a venda. Mas era peixe! Não eram carapaus e fanecas. Sei lá… corvinas, pargos, garoupas…» –, Tiago Jorge, para quem o estabelecimento de quotas não deve ser entendido negativamente, mas enquanto medida de protecção das espécies, aponta outra razão, além da sobrepesca, para o mais estreito preenchimento das redes: as alterações climáticas.

Todavia, interessa destacar este testemunho que aos dois coube: «Eles andam no mar ao fim de semana e derretem com tudo, e depois chegam aqui à segunda-feira e o peixe não tem praticamente qualidade nenhuma… e desde que vieram pr’aqui os espanhóis, ainda mais. Barcos portugueses com armadores espanhóis. A maneira deles pescarem é totalmente diferente da nossa. Fazem pesca continuadamente. Com dois homens a mais, o barco nunca pára… vendem o peixe aqui, em Matosinhos… Em Espanha já se proibiu a pesca ao fim de semana. Aqui em Portugal arranjámos uma solução em que dos associados da ADAPI [Associação dos Armadores das Pescas Industriais] só um pode pescar ao fim de semana, alternadamente. Os que não são da ADAPI continuam a pescar». Uma questão, portanto, de natureza política, na medida em que sucessivos governos de Portugal vêm desconsiderando a proibição da pesca ao fim de semana, já decretada no país vizinho (sublinhe-se aliás que, no porto da Figueira, é à segunda-feira que existe maior quantidade de peixe, pese embora de qualidade mais fraca, tendo porventura permanecido a bordo durante dois dias). Por outro lado, se na realidade espanhola é menos provável que uma determinada quota de peixe atinja o seu máximo (até porque a prática de “casar” espécies é frequente), o próprio sistema de transacção não está aí estruturado à volta da intermediação de uma empresa pública, tal qual a Docapesca (que gere, na Figueira da Foz, as valências do cais de atracagem, dos armazéns, da fábrica de gelo…), funcionando antes por confrarias e/ou cooperativas (ou seja, cada barco que acosta ao cais vende a outros membros daquelas o que foi pescado).

De resto, e a título comparativo, dá que pensar como Espanha beneficia ainda da acção dos bacalhoeiros portugueses que vêm do Canadá e rumam a Vigo, o maior porto de pesca da Europa. Se ali se vende bem, também na Figueira, à semelhança do que acontece em qualquer outro porto, sempre que um barco consegue obter bom retorno económico da sua pesca, maior a probabilidade de que lá regresse no dia seguinte, quiçá trazendo com ele mais embarcações. As derradeiras palavras para o volume de negócios anual da Docapesca, à qual se deslocam compradores locais (com pontos de venda própria: restaurantes, bancas no mercado municipal…), regionais e nacionais (hipermercados Modelo Continente, Pingo Doce, Intermarché, grupos com representantes diários em todos os portos do país, onde compram em grandes quantidades). Um volume de negócios construído a partir da percentagem ganha sobre o preço de compra do peixe na lota: oscilando normalmente entre os dez e os doze milhões de euros, cifrou-se, no ano transacto, e no que ao porto da Figueira da Foz concerne, nos sete milhões e meio. Um decréscimo que, segundo Tiago Jorge, é explicado por contingências ligadas à pesca da sardinha: «os nossos barcos, que operavam aqui, não conseguiam apanhar essa espécie, então tiveram que rumar a Peniche. Se calhar, se olharmos para os dados de Peniche, passaram para o dobro. Nesse ano não havia aqui. E eles tiveram que rumar para outro lado à procura de rendimento. Foi o que aconteceu. O ano passado estiveram lá um mês ou um mês e meio. Isto é um bolo nacional. Se olharmos para os dados daqui desceu, mas se olharmos para os dados de Peniche aumentou».

EMANUEL CAMEIRA

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